A máscara é o nosso novo normal?

Já estamos há mais de dois meses em isolamento social por conta da pandemia de Covid- 19. Muita coisa mudou nesse pouco tempo, desde costumes em sociedade, como novos hábitos que foram inseridos em nossas vidas. Sem falar na montanha russa emocional que tudo isso tem causado em muita gente.

Primeiro, apenas os profissionais da saúde deviam usar a máscara – hábito em países asiáticos, mas visto com muito estranhamento pela nossa gente do lado de cá – depois, trabalhadores que tinham muito contato com público e pessoas doentes; hoje todos devemos usá-la, sem distinção.

Chegamos de viagem um dia após declarada a pandemia e ficamos em isolamento durante duas semanas (recomendação do governo para quem viesse do exterior). Nesses 15 dias não saí de casa para absolutamente nada, até que precisei sair. A porta do elevador abriu no térreo do prédio e havia duas mulheres e um homem de máscara esperando para entrar. Tomei aquele susto. Fui até a portaria e pude ver faixas de interdição no parquinho. Fiquei abalada e tive vontade de chorar.

Não porque eu fosse uma completa alienada que não sabia o que se passava no mundo lá fora. Mas uma coisa é você saber e acompanhar as notícias pela televisão e internet, outra é quando você vê pessoalmente e toma aquele choque de realidade. Foi triste.

Numa outra rara saída, precisei ir até a padaria. É uma padaria grande e badalada do bairro, sempre muito movimentada. O restaurante estava fechado e apagado, o balcão interditado e não são mais servidas refeições para comer lá, apenas para retirada. Funcionários de máscara e proteção de acrílico. Mais um baque.

Com o tempo a gente vai se acostumando, se adaptando, mas ainda assusta um pouco. Essa semana desci para buscar algo na portaria e encontrei no elevador uma vizinha que há muito não via. Ela – de máscara – perguntou como nós estávamos e disse que só estava saindo para levar a filha, uma bebê de 10 meses, ao pediatra. Conversamos rapidamente, mas deu para sentir o ar preocupado e um tanto chateado que ela transmitia por conta de toda essa situação (sinto que estamos todos um pouco assim). O elevador chegou e nos despedimos, ela deu tchau e nos desejou muita saúde. E é o que mais importa nesse momento.

No início do isolamento, vi uma conversa sobre o uso de máscara e a pergunta se as pessoas achavam que aquele seria um novo hábito que levaríamos dali pra frente, mesmo após a pandemia. Na ocasião respondi que não, mas hoje já estou convencida do contrário. Como tantas outras coisas que esse vírus veio nos mostrar, o uso de máscaras agora também vai ser essencial.

Assisti a uma live sobre mudança de hábitos durante a pandemia, e a antropóloga comentou que há muito tempo (se não me engano, era antes da gripe espanhola, mas agora não lembro o dado correto) era comum as pessoas tossirem por aí sem colocar a mão na boca, algo inimaginável hoje. Talvez usar máscara e álcool em gel daqui uns anos será como tossir com a mão na boca para nossa geração hoje. Veremos.

Tudo ainda está incerto. Não sabemos por quanto tempo ainda teremos que ficar isolados. Mas acredito que ainda que possamos voltar a sair com mais cautela e sem aglomerações, teremos que conviver com o fantasma da Covid-19 nos assombrando por um tempo enquanto não houver vacina ou tratamento que consiga conter o vírus. Enquanto nada disso acontece, ficamos quietinhos em casa, com nossa máscara no rosto e álcool em gel nas mãos.

Pensamentos durante a pandemia

No início da pandemia, li um texto comparando tudo que estávamos passando durante o isolamento a um período de luto. Ele tinha estágios pelos quais pessoas de luto passam.

Negação, aceitação e negociação estavam entre esses estágios. Hoje, mais de um mês em distanciamento social, acho que já consigo enxergar a situação em perspectiva e as ideias (um pouco) mais organizadas.

Passei por esses três estágios que citei acima. Primeiro quando me neguei a enxergar que algo muito sério estava por vir. Mas quando percebi, não tive dificuldade em aceitar. Aliás, acho que essa é a principal característica para evitar maior sofrimento. A Negociação acho que vivo até agora, tentando entender quanto tempo isso ainda vai durar. Mas nunca lutando contra esse momento que estamos vivendo, nem tentando apertar o botão de avançar do controle remoto para pular essa parte. Acredito que tudo tem um porquê e acontece para nos trazer ensinamentos e nada melhor do que viver um dia de cada vez. Ao contrário, tenho tentado viver de maneira mais desperta, aprendendo com tanta coisa que vem acontecendo, tantos novos hábitos que certamente vieram para ficar, e o melhor: vivendo intensamente cada momentinho ao lado do meu filho e meu marido.

Isso quer dizer que tem sido fácil e todos os dias são bons e alegres? Claro que não! Por aqui também tem tristeza, desânimo, vontade de fazer nada, largar tudo e sair correndo. De chorar. De entender os porquês. Mas não temos todas as respostas. E nada dura para sempre, nem os dias ruins. Então me permito viver um dia triste, aceito e acolho esse sentimento, mas no dia seguinte, acordo bem, me arrumo e mudo o astral. É um novo dia e uma nova oportunidade.

Que esse período nos faça enxergar também as coisas boas, as oportunidades que podem surgir de períodos de crise. Que aceitemos o quanto antes a nova era que vem chegando. E que sempre haja um novo dia feliz para que possamos despertar e sair do estado de luto em que nos colocamos.