Saúde e gratidão

A saúde muitas vezes pode ser vista como uma analogia à limpeza de uma casa: quando está tudo limpo e ajeitado, ok. Talvez ninguém nem repare. Mas experimenta deixar tudo sujo e bagunçado pra ver.

Com a saúde é assim também. Enquanto está tudo bem, muitas pessoas talvez não deem o devido valor. Mas se ela faltar, vai fazer uma diferença enorme. E só assim que se vai reparar.

Aprendi que a saúde é um bem maior quando a minha mãe descobriu o primeiro câncer, em 2009. E isso foi reforçado no retorno da doença em 2013/2014, quando ela faleceu. E, mais recentemente, recebi o lembrete quando todos em casa tivemos covid e meu filho ficou 5 dias na UTI.

Não tem preço que pague uma vida saudável, livre de doenças e de hospitais, consultas médicas, exames e afins.

Me peguei pensando nisso essa semana, quando meu filho ficou doentinho – aquelas viroses de criança – e me veio à cabeça todos esses cenários anteriores que eu citei.

Depois daquela maratona de noite acordada, criança vomitando, passar o dia caindo de sono, mas no fim do dia ver que ele estava melhor, cheio de energia, e pensar que apesar de ter passado o fim de semana fechada em casa, me sentia grata. Pela nossa casa confortável para poder cuidar dele, pela nossa família que está sempre unida, nas horas boas e naquelas nem tanto, pelo tempo junto…

É a arte de estar presente e de sentir gratidão até mesmo pelas pequenas dificuldades diárias. São elas que nos ensinam, nos fortalecem e nos formam. Gratidão pela vida e pela saúde, sem ela não somos nada.

Sono compartilhado

Quando a gente se torna mãe, passa a conhecer conceitos que antes nem imaginava. Um deles é o sono compartilhado, quando o bebê / criança dorme no quarto dos pais.

Quando chegou da maternidade, meu filho passou a dormir em um um mini-berço no meu quarto, por sugestão da pediatra e também porque nos sentíamos mais seguros assim, já que ele era prematuro, além de tudo.

Ele foi crescendo, o mini-berço diminuindo, ele aprendeu a pular o tal do berço e muitas vezes dormia na nossa cama. Aos seis meses, a pediatra já tinha dito que ele estava preparado para ir para o próprio quarto. Mas aquela comodidade, misturada com uma preguicinha de ensinar a criança a dormir sozinha, ter que perder noites de sono novamente, quando tudo já caminhava muito bem – obrigada, não era uma opção atraente.

O mini-berço então deixou de servir; pelos motivos acima tive a ideia de colocar o colchão do berço ao lado da minha cama. Assim, ele estaria no meu quarto, mas teria sua “própria cama”.

Lá se foram 3 anos e meio (😂). É, minha gente, maternidade é isso: pagar a língua no crédito e no débito!

Agora ele já tem uma cama de solteiro, com seu telhado e tendinha. Estava todo animado no início. Mas na hora do vamos ver, ficou desconfiado, assustado. Não queria dormir. Já são quatro noites que ele pega no sono na própria cama, no próprio quarto. Do jeito que eu imaginava: eu ali do ladinho dele, depois de contar uma história ou assistir um desenho juntos.

Ele ainda levanta de madrugada e vai correndo pra minha cama. Também pudera, tanto tempo fazendo isso, não é de se esperar que ele vá mudar de uma hora pra outra, né? A sensação é de ver o tempo voar, ver meu menino crescer, se tornar autônomo e independente. E, apesar da nostalgia de perder meu bebê, vem o orgulho da criança que ele está se tornando e do trabalho que fazemos como família. Com sono compartilhado ou não, o importante é ele saber que sempre vai ter um colo quentinho pra correr quando ele quiser.

Adeus, Apollo

Ela não era muito ligada em animais. Ele gostava e queria muito ter, mas faltou oportunidade. Quando completaram um ano de namoro, ele a encontrou. Resolveu dar um filhotinho de labrador como presente de comemoração.

Não precisou de muito esforço para convencer os envolvidos. Aquela bolinha gorda e peluda com olhar pidão conquistava até o mais duro dos seres humanos. Foi batizado Apollo, o deus do sol, apesar dos pelos pretos azulados de tão brilhantes.

A bolinha de pelos foi crescendo, aprontando trapalhadas como as do Marley no filme. Comeu porta de madeira, sapatos, rasgou sacos de lixo… mas era muito querido por todos.

O cachorro, que “deveria ser tratado como cachorro”, nas palavras dele e morar no quintal, passou a morar dentro de casa quando a sogra faleceu e o casal se mudou. Apollo, que a essa altura era membro muito querido da família, foi promovido e dormia dentro do quarto nos dias mais frios, quem diria.

Viveram juntos por vários anos. Viajaram, iam a parques, casa de amigos, era muito companheiro. Mudaram de casa novamente, chegou um bebê para disputar espaço com ele. Mas Apollo sempre foi resiliente, conhecia seu espaço, passou por todas as fases com muita elegância.

Quando o bebê chegou, ele já tinha certa idade, não mais o pique e energia inesgotáveis de filhote. Mesmo assim, aguentou pacientemente todos os abraços, puxões de orelha e mais algumas travessuras que aquela bolota humana fazia com ele.

Porque ele era assim: amável, carinhoso, sabia quando alguém estava triste e conseguia consolar apenas pelo olhar amoroso ou pela simples presença.

Doze anos se passaram. Aquela fortaleza agora não aguentava mais os longos passeios; a audição não era mais a mesma e ele passava boa parte do tempo dormindo.

Ela achava que ele ainda viveria uns bons anos, mas ele dizia que não. Apollo estava velhinho e logo chegaria sua hora de partir. Talvez ele soubesse que esse momento havia chegado, já que nas duas últimas noites dormiu no quarto do casal – algo que há muito tempo não fazia.

Naquela manhã de sábado não deu seu religioso passeio pelas ruas do bairro. Ela o abraçou, fez carinho, conversou, mas Apollo não respondia. Quando saíram de casa, ela sentiu que ele poderia não mais voltar. Aquela era a despedida.

Apollo foi passear no céu dos cachorros e deixou aqui memórias e aprendizados de uma vida inteira de muito amor que deu e recebeu. O amor mais puro, verdadeiro e incondicional que existe: o de um bichinho pelo seu dono. A dor da partida é grande demais. Mas fica toda honra e gratidão que eles sentiram por ter convivido com Apollo nessa vida.

Encontro com a própria sombra

O que acontece quando se está em contato profundo consigo mesmo e é possível acessar camadas do subconsciente e da memória que você nem lembrava mais (ou preferia deixar lá esquecido)?

É como estar numa sessão de terapia, mas o terapeuta é você mesmo. Você é capaz de escolher as portas que deseja abrir e as memórias e traumas que deseja acessar e trabalhar. A relação de tempo e espaço fica completamente distorcida: um momento agradável e aconchegante pode parecer durar pouco, já um desconforto de minutos parece horas intermináveis. Tudo isso no intervalo de uma música.

É uma experiência tão terrível quanto maravilhosa. Terrível porque lidar com sentimentos, crenças e talvez traumas que até então você não queria trazer à tona, ou, ainda, nem sabia da existência, dói. E maravilhoso porque é incrível ter o poder de acessar e curar feridas que antes machucavam, fazer as pazes com o passado.

A verdade é que todas as vivências estão lá guardadas em algum compartimento. Mas o cérebro deixa arquivado e escondido como mecanismo de proteção. Como o universo é perfeito, esse acesso será feito no momento certo.

Ouvir a voz do eu superior pode ser libertador e ao mesmo tempo uma luta interna consigo mesmo. Lá no fundo, você sabe o melhor caminho, mas às vezes, prefere ficar brigando com as possibilidades.

O mais maravilhoso de passar por uma experiência dessa, de mergulhar profundamente para dentro de si, é se conhecer ainda mais, ampliar a consciência sobre si mesmo, sobre o mundo. E saber que nunca mais será igual. A certeza é de mudança muito positiva e de um passinho a mais no caminho da evolução.

Um passinho a mais no entendimento do porquê passamos por algumas situações e o que temos que aprender com cada uma delas. Só passando pela tempestade é possível encontrar o arco-íris. E, para isso, encontrar a própria sombra é imprescindível na jornada do autoconhecimento.

Um brinde aos 35 🍸

Me peguei lembrando de quando estava completando 25. Toda expectativa que as pessoas geralmente colocam sobre os 30 anos, eu coloquei nos meus 25. Havia criado todo um cenário de vida perfeita: bem sucedida no trabalho, com um super salário e morando sozinha no próprio apartamento. Aquela fórmula pronta de estudo, carreira, sucesso e dinheiro que nos enfiam guela abaixo a vida toda.

Eis que agora, dez anos depois, a poucos dias de completar 35, fiz novamente um balanço. Como eu era boba naquela idade. Não sabia metade do que estava por vir. Mas aquela menina que pouco sabia foi importante e faz parte de quem sou hoje.

Minha vida não é como a que eu esperava ou idealizava lá atrás. Ela é muito melhor. É perfeita? Não. Significa que não haja pontos que devam ser mudados ou com os quais não estou totalmente realizada? Sim. Mas tudo isso faz parte da pessoa que estou construindo.

Hoje sou muito feliz com tudo que fiz e como me transformei nesses anos. O destaque vai para meu lado mãe, que é o melhor dos meus papéis. E foi com ele que pude viajar internamente e revelar tantas coisas escondidas, trazer à tona partes de mim que eu nem sabia existir.

Minha viagem pelo autoconhecimento está no começo ainda, mas já diz tanto sobre a minha jornada e meu papel aqui. Os 35 vêm como um marco. Não mais a juventude e imaturidade dos 20, ainda não tão sábia e madura como acredito que sejam os 40. Mas no melhor que posso ter dos meus 30 e poucos. Não há tempo melhor do que o presente. E é esse que quero viver com todas as dores e delícias que me traz. Um brinde aos 35!